Ela ia descendo a rua calmamente, olhando para o chão como a contar os passos, não erguia a cabeça em momento algum, nem para ver as pessoas que raramente passavam. O silêncio era seu parceiro, estava perdida em seus pensamentos como se estivesse no meio de uma batalha com a sua mente, e pelo despero estampado em sua face posso afirmar que ela estava perdendo.
Andava mais rápido agora, ia se embrenhando nas ruazinhas mal iluminadas da cidade e mesmo assim não olhava para os lados, ela ja conhecia aqueles becos bem de mais, não precisa olhar para ver aonde ia. De repente ela parou e levantou os olhos para um barraco pequeno, que mal parava em pé, olhou para a porta de madeira que estava cheia de furos e manchas pretas, e nesse momento seus pensamentos voaram, como se voltasse no tempo, indo buscar uma lembrança importante para se agarrar e poder seguir em frente, mas foi rápido demais e ela ja estava novamente na realidade, como se tivesse caído ali daquele lugar. Olhou rápido para os lados com medo de ser vista e entrou. Acendeu o lampião e olhou ao redor, esperando acordar daquele pesadelo. Era um cômodo abafado, com uma cama pequena em canto uma mesinha do outro lado e um fogãozinho no espaço que ainda restava, nao tinha janelas e apenas uma cadeira, ela não tinha ninguem para dividir aquele lugar, estava sozinha.
Nas paredes podia ver recortes de jornal com noticias antigas, fotos de festas e pessoas rindo felizes, de jantares suntuosos, casais bem vestidos. Era uma vida oposta a que ela tinha.
Mas ela ja estava em uma idade avançada para sonhar com aquelas coisas, podia-se perceber o brilho no olhar quando fitava aqueles recortes,era de saudades, de esperança. Como se esperasse voltar aos velhos tempos. Sim aquelas era suas memórias, as únicas que ainda podia cotemplar.
Aquilo tudo fora dela, as roupas, as festas, a riqueza a popularidade, mas agora não havia restado nada alem das lembranças. Nem todas as coisas da vida duram para sempre, e quando tudo que conquistou pode contar em números, já é tarde demais para voltar atrás. Tudo que havia de importante para se construir e viver foi substituído pelo prazer da posse, não foi difícil trocar seus sonhos por um punhado de notas, não naquele momento, mas depois de tanto tempo a única coisa que ficou para te acompanhar foi aquele sabor amargo do arrependimento.
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