Sou eu o senhor do meu destino! Sou eu o capitão da minha alma!

sábado, 26 de junho de 2010

Tô descendo a serra

Depois de muitos planos desfeitos e muitos incidentes no caminho, decidiu não pensar mais tanto tempo nas coisas, resolveu ir. Nem que fosse sozinha.
Pegou o carro, as roupas, o mapa e os livros, que sempre iam junto. E foi. Pra onde?
Para qualquer lugar. Ia parar no caminho, conhecer lugares novos, rever amigos, parentes, ia ir sem pressa só pelo prazer de ir.
Nas primeiras horas estava nervosa, mas não era por dirigir, nem por medo. Era outro sentimento, ia entrar em um mundo novo, diferente, algo que ela já não estava mais acostumada, que por algum tempo havia conseguido evitar, mas não pode mais. Nem pensou muito, simplesmente foi. E foi melhor do que esperava. Depois disso já estava tranquila, começava neste momento outra parte da viagem, mais solitária.
Era uma solidão que nem mesmo ela estava acostumada,sem ninguém para ouvir, para compartilhar as descobertas do caminho, sem ninguém para chegar, nem pra conversar até adormecer.Mas ela não sentia falta daquilo naquele momento.
Olhou o céu, o mais lindo que já tinha, mais azul, mais quente. Aconchegante. Parou o carro, desceu. Ao redor só via o céu e a estrada, parecia um sonho. Sentiu uma liberdade nova, que vinha trazida pelo vento e se emaranhava aos cabelos.Embriagava os sentidos tão rápido que mesmo se quisesse não poderia evitar.
Continuou o caminho sem encontrar viva alma por muito tempo, viu lugares e por vezes incontáveis pensou em parar e ficar por ali mesmo.
Exausta mas feliz chegou ao seu destino, era uma bela cidade, cheia de encantos e de pessoas. Não foi o que ela esperava. As pessoas.
Andou por muito tempo sem rumo, passou por ruas transbordando, por pessoas passeando freneticamente, como se tudo fosse desaparecer e não pudesse mais ser visto. Sentiu de repente um enorme vazio, ficou com medo.Resolveu então descansar e deixar o resto pra depois.
Ficou muito tempo no chuveiro, sentindo aquele calor esquentar seu corpo aos poucos, não pensava em sair, esperava ansiosamente que aquele calor chegasse até sua alma. Estava presa a uma angústia, aquele vazia havia se apoderado dela desde a tarde e não queria ir embora, pensava que o cansaço era demais e que isso a estava afetando. Mas no fundo tinha medo que não era somente o motivo.
Deitou. Não dormiu.Tentou muito tempo, pensou em muitas coisas, viu filmes, leu. Nada. Ficou com medo, e o medo foi crescendo,se misturando com a saudade, com a angustia. Tomou conta do pensamento dela.
Nem sabia ao certo se era medo. Não tinha motivos para sentir medo, já conhecia a sensação de estar só, isso não a atormentava. Mas havia algo novo ali, era aquele vazio que a acompanhava. Mas ela não descobriu a origem e mesmo depois de muito tempo ainda sentia.
Acordou cedo, olhou ao redor. O encanto havia sumido, juntou suas coisas tão rapidamente e foi embora, nem olhou pra trás, nem sentiu vontade de ficar. O prazer da viagem ficou dentro do carro.
"...Tô descendo a serra
Cego pela cerração
Salvo pela imagem
Pela imaginação
De uma bailarina no asfalto
Fazendo curvas sobre patins..."

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