Sou eu o senhor do meu destino! Sou eu o capitão da minha alma!

sábado, 29 de outubro de 2011

Vem Sentar-te Comigo

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas (Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado, Mais longe que os deuses.
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassosegos grandes.
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, Nem invejas que dão movimento demais aos olhos, Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria, E sempre iria ter ao mar.
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos, Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro Ouvindo correr o rio e vendo-o.
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as No colo, e que o seu perfume suavize o momento — Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada, Pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos Nem fomos mais do que crianças.
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio, Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti. Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio, Pagã triste e com flores no regaço.
Ricardo Reis - Odes De Ricardo Reis

domingo, 9 de outubro de 2011

Noite

Apague as luzes e olhe para o céu, veja as estrelas, as nuvens a escuridão e sinta como se estivesse a sós com a noite, não tenha vergonha se ficar com medo. Se achar que não tem graça, desista. Se pensar num ovo frito vá comer. Se decidir que uma cerveja cairia bem, nem pense duas vezes em sumir de vista. Se lembrar da vizinha gostosa, acho que não tem mais salvação. Se pensar que poderia estar fazendo algo mais importante, eu sinto muito por você. Se quiser deitar de costas e contar as estrelas, pode ser que ainda tenha jeito, mas acho meio brega. Mas se de repente sentir como se estivesse olhando bem fundo dentro de si, vendo tanta coisa la dentro e começar a procurar imagens e lembrar de coisas, ai talvez eu possa conversar contigo de igual. Não que eu vá te perguntar o que encontrou, por que estarei ocupada procurando. Mas posso apoiar a tua vontade de descobrir, sem tentar te fazer ver o mesmo que meus olhos têem visto, ou mostrar um caminho a seguir. E se quiser ascender as luzes considere nosso pacto quebrado, tenho muito o que aprender aqui no escuro da noite, por que tenho menos medo que do escuro aqui dentro.
"este papel de parede
ou ele se vai
ou eu me vou"

Saudade

Saudade é solidão acompanhada, é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam, é a dor dos que ficaram para trás, é o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade: aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos: não ter por quem sentir saudades, passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.
Pablo Neruda
Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos, já não se adoçará junto a ti a minha dor. Mas para onde vá levarei o teu olhar e para onde caminhes levarás a minha dor. Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos uma curva na rota por onde o amor passou. Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame, daquele que corte na tua chácara o que semeei eu. Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste. Venho dos teus braços. Não sei para onde vou. ...Do teu coração me diz adeus uma criança. E eu lhe digo adeus.
Pablo Neruda

sábado, 8 de outubro de 2011

Hora de ir

Abri a janela e a luz do sol inundou o comodo, respirei fundo e olhei pra fora o céu era tão azul que cegava. Peguei meu chapéu desci as escadas até a porta. Rapidamente girei a maçaneta e peguei meu guarda chuva, o dia esta perfeito agora, chovia. Corri pelas ruas até chegar no final da cidade, subi a escada até o fim.
Ali estava ela a me esparar novamente, sentei na sua sombra e adormeci por algumas horas. Esperava minha carona para ir embora, ele prometeu que me buscaria assim que pudesse e eu esperava todos os dias até o nacer do sol.
Aquele dia provavelmente seria igual aos outros, mas nao importava eu esperaria sempre. Acordei ja tinha parado a chuva, olhei para o lado e ali me olhando serenamente ele enfim tinha vindo, nao aguentei de felicidade e o abracei, agora poderiamos ir. Ele sorriu, me convidando a ir.
Entramos na casa novamente, peguei minhas coisas, um casaco, um livro e minha bolsa com um pouco de comida, não precisava muito, sempre teriamos que voltar, mas precisavamos ir. Abriu a porta e o trem nos esperava, subimos apressados e partimos.

Por que diabos eu faço isso?

E se dói tanto assim não seria melhor encontrar um jeito de acabar com a dor, um ponto final, uma borracha, uma fogueira, queimar as lembranças uma após a outra, tranca-las bem fundo e quando a próxima vier poder comparar e descobrir o que faz que elas voltem, mais fortes, insistentes, longas, profundas. Quem foi que prometeu que ia ser facil? Não sei realmente, mas se fosse fácil não seria divertido. Se isso serve de consolo, melhor pra você, isso já não me levanta mais pela manhã, nem faz com que o meu dia fique melhor. Eu passo e não sinto mais nada, como se não estivesse ali, como se meu corpo fosse de outra pessoa e eu apenas olhasse de longe tudo que esta acontecendo. Eu me agarro aos sentimentos, as emoções , e ao mesmo tempo eu vou largando elas pelo caminho, os pedaços vão caindo e eu não consigo mais juntar nenhum, não tenho aonde carregar, não cabem nos meus braços, nem nos bolsos, não tenho aonde pendurar e eles vão ficando prás como um rastro, uma trilha, talvez pra mostrar o caminho de volta, como insinuando um lugar pra voltar. Talvez seja por isso que muitos gostam de voltar, talvez seja por isso que eu nunca vá voltar.

domingo, 2 de outubro de 2011

Quero

Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.
Pablo Neruda